- Lincoln Rodrigues

- 23 de mar.
- 5 min de leitura
Uma igreja moldada pela grande história da Bíblia
Por que a história bíblica precisa voltar a moldar nossa vida e missão
Infelizmente, tem sido comum vermos comunidades de fé adaptando sua liturgia e doutrina para atraírem o maior número de pessoas possível ou não perder os membros de suas comunidades através do investimento em ações que não visam a formação espiritual e missional do povo de Deus, e sim apenas satisfazer os anseios de consumo religioso.
A reflexão proposta neste artigo é fundamental para entendermos que a narrativa bíblica demonstra a graça do Senhor sobre um povo (formado por Ele e do qual fazemos parte) chamado a fazer novos discípulos, abençoar as nações e contribuir para o desenvolvimento da cultura.
A IGREJA COMO UMA COMUNIDADE MISSIONAL: UM POVO CHAMADO PARA ABENÇOAR OUTROS
Em seu livro A Igreja Missional na Bíblia, Michael Goheen realiza uma abordagem acerca da identidade e papel da igreja ao longo da narrativa bíblica e, embora geralmente se atribua o início da Igreja e das missões ao séc. I d.C, é possível verificar que a partir do chamado de Deus a Abraão e a formação de um povo para vivenciar e testemunhar o agir de Deus em seu meio (Gn. 12:1-3) percebemos o desenvolvimento de uma comunidade de pessoas com a vocação clara de refletir a glória de Deus e ser luz para as nações (Goheen, 2014, e-book).
Goheen diz que “a missão corretamente entendida, é o papel dos escolhidos de Deus de viver como um povo de contraste e com isso atrair as nações ao seu redor para a aliança com Deus. Assim, a missão não se inicia em Atos, mas muito antes, no início da história bíblica” (Goheen, 2014, pos. 2674, e-book).
Quando falamos em eclesiologia missional, logo vem à mente o desenvolvimento e a expansão da igreja ao longo da narrativa bíblica por meio da missão, e aqui um ponto importante: a missão implica, necessariamente, produzir uma influência que atraia pessoas de fora para uma comunidade cujo estilo de vida se revela completamente distinto do estilo de vida majoritário, influenciado pela cultura corrompida pelo pecado.
Isso nos leva a uma primeira conclusão: a Igreja não deve ser centrada nela mesma e isolada da vida pública, às margens da sociedade. Pelo contrário. O povo de Deus é chamado para abençoar os que ainda não fazem parte desse reino de sacerdotes, em resposta ao resgate e restauração realizados por Deus em nosso favor. Missões, portanto, é participar ativamente da missão iniciada por Deus para a redenção da criação e da humanidade.
Em resumo, a missão de Deus consiste em “recuperar a criação e a vida da humanidade da devastação causada pelo pecado” e a função da igreja é “participar da missão de Deus” (Goheen, 2014, pos. 490, e-book).
A segunda conclusão é que, como participante da missão de Deus e com o chamado missional que lhe é inerente, a igreja precisa ser vista pelo mundo enquanto uma comunidade escatológica, que vive, de maneira antecipada, os efeitos da nova criação. Essa compreensão é fundamental para a igreja, pois diz respeito ao modo como ela se relaciona com o contexto cultural-social onde está inserida, atraindo o seu entorno para Cristo e sendo uma igreja para a cidade.
Atos 2:42-47 descreve como viviam os primeiros cristãos e, no versículo 47, Lucas destaca algo muito importante: os primeiros cristãos tinham a simpatia de todo o povo e, todos os dias, Deus acrescentava novas pessoas a esse grupo de cristãos que surgia em Jerusalém.
Vemos, portanto, um grupo de pessoas vivendo antecipadamente os efeitos da nova criação a partir do derramamento do Espírito Santo, a manifestação dos dons, a generosidade para com os necessitados, a comunhão, o partir do pão e etc. Uma revolução avassaladora, frente a cultura idólatra e hedonista do Império Romano, e incapaz de passar despercebida.
Na verdade, os primeiros cristãos expressavam a vida do Cristo ressurreto, não de maneira tímida, mas sim de maneira explícita e extravagante através do evangelho.
Esse povo é fruto da obra de Cristo que, em sua vida – morte – ressurreição - ascensão, restaurou e purificou Israel, iniciou o ajuntamento dessa comunidade escatológica e comissionou seus discípulos a continuarem a missão.
Mas, como podemos ser mais efetivos no empreendimento missional de Deus, ao qual fomos chamados a participar? Existem diversas propostas que visam responder essa pergunta e podem ser aplicadas. No entanto, destacaremos aqui a incorporação da metanarrativa bíblica na liturgia e doutrina da igreja no intuito de formar uma comunidade onde a missão está no centro das suas atividades.
A METANARRATIVA BÍBLICA COMO EIXO CENTRAL DOUTRINÁRIO E LITURGICO DA IGREJA E NA FORMAÇÃO MISSIONAL DA COMUNIDADE
Na contemporaneidade, diversas igrejas acabaram deixando de lado o aspecto formativo da liturgia para focar em ações de entretenimento para atrair ou manter pessoas em suas comunidades. O culto, antes centrado na palavra de Deus, deu lugar ao anseio de satisfazer o desejo de consumo dos que ali estão.
Nesse sentido, James K. A. Smith diz que as liturgias atuais “são construídas sobre rituais consumistas e sobre ritos de valorização pessoal.” Isso leva a um abandono da ênfase comunitária que a Igreja deve nutrir e formar seus membros. Afinal, se pertencemos ao corpo de Cristo, a nossa vida está inserida dentro de um contexto maior, cujo direcionamento está para além das nossas expectativas e desejos pessoais (Smith, 2017, p. 303).
Evidentemente, um ambiente voltado para a formação nem sempre será divertido ou atrativo. Porém, uma abordagem litúrgica cuja referência a metanarrativa bíblica seja contínua, intencional e direta é o modelo pedagógico mais efetivo para a formação de uma comunidade missional que testemunhe Cristo de modo integral, nos mais diversos ambientes.
Essa abordagem, aliás, fará com que a igreja assimile a sua identidade e seu papel na missão redentiva instaurada por Deus e, consequentemente, entenda o seu chamado para ser uma comunidade de contraste dentro de uma cultura corrompida pelo pecado, ao mesmo tempo em que ela está sendo treinada para o que Goheen chama de encontro missionário no seu chamado ao mundo, que consiste em aproximar-se da cultura sem negligenciar o seu papel profético de lançar luz sobre os falsos ídolos que a influencia (Goheen, 2014, e-book).
Na mesma linha, Vanhoozer defende que “a responsabilidade exclusiva da igreja é proclamar e praticar o evangelho, dando no discurso e na vida testemunho da realidade da presença e da ação de Deus em Jesus Cristo e no Espirito Santo” (Vanhoozer, 2016, p. 19-20).
Uma liturgia que trabalha diretamente com a história bíblica, portanto, faz com que as pessoas entendam o propósito holístico da missão de Deus de redimir a sociedade em suas mais diversas esferas (política, econômica, social, acadêmica e etc.).
A missão é o coração da igreja! Uma igreja missional vive o chamado de ser luz para as nações e ser o sal da terra (Mt. 5:13-16), atraindo os que estão de fora a voltarem seu olhar para uma comunidade escatológica que, parafraseando Marcos Almeida, da terra daqui vive a terra do céu; e a aplicação constante da metanarrativa bíblica a liturgia e a doutrina da Igreja atua como ferramenta pedagógica que trabalha a cognição e a imaginação indispensáveis para moldar a vida da Igreja (Vanhoozer, 2016).
Jesus nos chama para fazer discípulos a fim de abençoar o mundo, expandir o Reino de Deus e multiplicar adoradores sobre a Terra.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GOHEEN, Michael W. A igreja missional na Bíblia: luz para as nações / Michael W. Goheen, tradução de Ingrid Neufeld de Lima. – São Paulo: Vida Nova, 2014. E-book
SMITH, James K. A. Você é aquilo que ama: o poder espiritual do hábito / James K. A. Smith; tradução de James Reis. – São Paulo: Vida Nova; 2017.
VANHOOZER, Kevin J. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã / Kevin J. Vanhoozer; tradução de Daniel de Oliveira - São Paulo: Vida Nova; 2017.
Lincoln Rodrigues: Mestre em Teologia Missional pela Escola Ministerial Antioquia, Idealizador e Cofundador do Núcleo de Estudos Fé Inteligente (NEFI), e Pastor da Igreja de Deus da Profecia.




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