- Medson Barreto
- 19 de mai.
- 7 min de leitura
A Reforma Protestante libertou a Arte?
"Foi o Calvinismo que, libertando a arte da tutela da Igreja, primeiramente reconheceu sua maioridade."¹
Em 1898, Abraham Kuyper apresentou seis palestras na Universidade de Princeton, que foram reunidas no livro Calvinismo (Cultura Cristã, 2002). A quinta delas foi dedicada à arte, e essa frase provocadora sintetiza o argumento central de Kuyper. Mas o que exatamente essa libertação significa? O que ela produziu historicamente? E onde a visão de Kuyper tem limites? É esse percurso que pretendo fazer neste texto.
A arte e a religião
Kuyper traça um arco histórico que parte do mundo antigo. Para ele, arte e religião estiveram, desde sempre, profundamente entrelaçadas:
"Dificilmente pode ser mencionado um único estilo artístico que não se originou do centro da adoração divina e que não procurou a realização de seus ideais nas construções suntuosas feitas para esta adoração. Este foi o florescer de um impulso que em si mesmo era nobre. A arte derivou seus mais ricos motivos da Religião."²
No mundo pré-cristão, arte e culto eram indistinguíveis: os zigurates mesopotâmicos, os templos gregos, os rituais egípcios, as danças indígenas — cada expressão artística servia à adoração. A beleza existia para aproximar o humano do divino, qualquer que fosse esse divino.
Na Igreja Católica medieval, essa aliança migrou para o Cristianismo com toda a sua força. A arquitetura das catedrais, a música sacra, a iconografia, os vitrais — tudo nasceu dessa relação entre fé e estética. Kuyper não subestima o que foi produzido. Afirma: "No sentido literal da palavra, todo desenvolvimento humano daquele período dependia inteiramente da Igreja."³ O problema, na sua leitura, estava na dependência estrutural: a arte precisava da Igreja para existir e a Igreja tinha na arte sua principal linguagem.
A Reforma altera essa lógica. Gradualmente, o princípio muda. Nas palavras de Kuyper: "A arte é uma planta que cresce e floresce sobre sua própria raiz, e o princípio calvinista exigiu que esta planta da terra deveria finalmente adquirir força para ficar de pé sozinha."⁴
A separação que a Reforma produziu
Para justificar esse movimento de separação entre religião e arte, Kuyper recorre aos filósofos alemães Hegel e Von Hartmann. O segundo afirma que:
"Quanto mais a Religião se desenvolve em maturidade espiritual, tanto mais se livrará das ataduras da arte, porque a arte sempre é incapaz de expressar a própria essência da Religião. E o resultado final deste processo histórico de separação, ele conclui, deve ser que a Religião quando plenamente madura se absterá completamente do estimo pelo qual a pseudoemoção estética a intoxicou, a fim de concentrar-se total e exclusivamente sobre o avivamento daquelas emoções que são puramente espirituais."⁵
Kuyper usa essa tese para sustentar que o Calvinismo representa um "estágio mais maduro de desenvolvimento religioso" — aquele que adora "em espírito e verdade" sem depender de mediação estética.
Aqui é preciso abrir um parêntese crítico. O argumento pressupõe uma dicotomia: a de que emoções estéticas e experiências sensoriais pertencem a uma espiritualidade inferior. O ser humano, porém, é encarnado. Deus habitou um corpo. Jesus chorou, comeu, se alegrou, dormiu, tocou os doentes. A adoração que passa pelo sensorial e pelo belo não é por isso menos espiritual — pelo contrário, é plenamente humana.
Reduzir o "puramente espiritual" ao não-sensorial tem mais de gnosticismo do que de Evangelho. A estética, aliada à pregação fiel das Escrituras, forma o imaginário: ela aponta o olhar, educa o desejo, orienta o que consideramos belo e digno de devoção. A pobreza estética, por outro lado, não produz neutralidade — ela cede terreno para que outras narrativas, outras imagens e outros afetos capturem o que deveria ser formado pela fé.
O que Calvino disse sobre a arte
Feita a crítica, é hora de recuperar o que Kuyper tem de mais valioso no capítulo: sua exposição do pensamento calvinista sobre a arte.
Em Gênesis 4.21, Jubal é descrito como pai dos que tocam harpa e flauta — descendente de Caim, portanto fora da linhagem que se manteve fiel ao Criador. Isso é exatamente o ponto. Kuyper cita Calvino: "quanto ao instinto artístico, Deus tinha enriquecido Jubal e sua posteridade com raros dons naturais. E, abertamente, declara que esses poderes inventivos da arte são o mais evidente testemunho do favor divino."⁶ A graça artística é distribuída onde Deus quer, sendo fruto da graça comum.
A síntese mais completa da visão de Calvino sobre a arte aparece nesta passagem:
"Podemos dizer que Calvino apreciava a arte em todas as suas ramificações como um dom de Deus, ou mais especialmente, como um dom do Espírito Santo; que ele entendeu plenamente os profundos efeitos produzidos pela arte sobre a vida das emoções; que ele apreciava o fim pelo qual a arte fora dada, a saber, que por ela poderíamos glorificar a Deus, dignificar a vida humana, e beber na mais alta fonte de prazeres, (...); e, finalmente, que longe de considerar a arte como simples imitação da natureza, ele lhe atribuiu a nobre vocação de desvendar para o homem uma realidade mais alta do que foi oferecida a nós pelo mundo pecaminoso e corrupto."⁷
É difícil ler esse parágrafo e construir a imagem de um Calvino austero e inimigo da beleza. Sobre a fonte de toda expressão artística verdadeira, Kuyper acrescenta: "não é concebível nenhuma unidade na revelação de arte, exceto pela inspiração artística por uma Beleza Eterna, que flui da fonte do Infinito. Por isso, nenhum estilo característico de arte todo-abrangente pode surgir exceto como consequência do impulso peculiar do Infinito que opera em nosso ser interior."⁸
Imitar ou transcender? A vocação da arte
A seção mais densa do capítulo enfrenta uma questão que as teorias estéticas debateram por séculos: a arte deve imitar a natureza ou transcendê-la? Kuyper recusa os dois extremos:
"Na Grécia uvas eram pintadas com tal precisão que os pássaros eram iludidos por sua aparência e tentavam comê-las. E esta imitação da natureza parece ter sido o ideal maior da escola Socrática. Aqui, encontra-se a verdade muitas vezes esquecida pelos idealistas, de que as formas e relações exibidas pela natureza são e sempre devem ser as formas e relações fundamentais de toda realidade atual, e uma arte que não observa as formas e movimentos da natureza nem escuta seus sons, mas arbitrariamente gosta de flutuar acima dela, se degenera num bárbaro jogo de fantasia."⁹
Mas a mera imitação também é insuficiente. Assim como a ciência precisa ir dos fenômenos à ordem que os governa, "assim a vocação da arte é, não simplesmente observar cada coisa visível e audível, a fim de apreendê-la e reproduzi-la artisticamente, mas muito mais, descobrir naquelas formas naturais a ordem da beleza, e enriquecido por este conhecimento superior, produzir uma beleza mundial que transcende a beleza da natureza."¹⁰
A chave para entender essa vocação está na narrativa da redenção: o mundo foi belo; o pecado o corrompeu; a redenção o restaurará a uma glória maior do que a do paraíso original. Dentro dessa visão, a arte ganha uma função que vai muito além da decoração:
"A arte tem a tarefa mística de lembrar-nos, em suas produções, da beleza que foi perdida e de antecipar seu perfeito brilho vindouro (...). A arte chama a atenção tanto para as linhas do plano original ainda visíveis quanto, o que é ainda melhor, para a esplêndida restauração pela qual o Supremo Artista e Construtor Mestre um dia renovará e até mesmo intensificará a beleza de sua criação original."¹¹
E aí encontramos a fonte mais profunda da criatividade humana:
"Nossa capacidade para criar segundo Ele e segundo o que Ele criou, pode consistir somente na criação imaginária da arte. Assim nós, à nossa maneira, podemos imitar o trabalho manual de Deus. Nós criamos um tipo de cosmos em nosso monumento arquitetônico; embelezamos formas da natureza na escultura; em nossa pintura reproduzimos a vida, animada por linhas e cores; transfundimos as esferas místicas em nossa música e em nossa poesia. E tudo isto porque a beleza não é o produto de nossa própria fantasia, nem de nossa percepção subjetiva, mas tem uma existência objetiva, sendo ela mesma a expressão de uma perfeição Divina."¹²
Criar, nessa leitura, não é produzir algo a partir do nada — é participar, à nossa maneira limitada, do trabalho do Criador. Isso muda a forma como o cristão artista entende sua própria prática.
O que o ambiente reformado produziu
Para ilustrar seus princípios, Kuyper recorre à pintura holandesa. Rembrandt e a escola dos séculos XVI e XVII representam, para ele, a democratização do olhar artístico que o ambiente reformado tornou possível: a vida cotidiana ganhou dignidade como tema artístico. O homem comum, a família, o trabalho ordinário. "Através da luz da graça comum foi visto que a vida não eclesiástica também possuía grande importância e uma multifacetada motivação artística."¹³
Na música, Kuyper destaca Bourgeois e Goudimel — compositores calvinistas que trabalharam em Genebra e introduziram ritmo, harmonia e canto congregacional. O princípio do sacerdócio universal dos crentes exigia que o povo cantasse, e isso produziu consequências duradouras para a música ocidental.
Mas aqui o argumento de Kuyper revela um ponto cego, ignorando a grandeza do que outras tradições cristãs produziram. Ele não menciona Johann Sebastian Bach nem Georg Friedrich Handel — ambos luteranos, ambos produzindo dentro de uma tradição reformada, e cujos legados musicais superam os dos compositores calvinistas que ele cita. As Paixões de Bach, suas cantatas litúrgicas, o Messias de Handel — obras que existiam e eram conhecidas no seu tempo.
O que fica de Kuyper
Aprendemos com Kuyper a ver a arte como dom do Espírito Santo, distribuído pela graça comum a crentes e incrédulos; a beleza como expressão objetiva de uma perfeição divina; a arte como memória do paraíso e antecipação da glória; e a esfera estética como esfera soberana, com leis próprias que existem independe de qualquer aprovação eclesiástica.
Autores que beberam dessa tradição produziram obras que aprofundam esse pensamento. Francis Schaeffer, em A Arte e a Bíblia, oferece uma introdução acessível às implicações práticas de uma teologia da criação para a arte. Rookmaaker aprofundou essas bases em obras como Arte Não Precisa de Justificativa e Filosofia e Estética. Makoto Fujimura, em Arte e Fé: Uma Teologia do Criar, traz a reflexão para dentro da prática artística contemporânea, a partir de sua experiência como pintor. E Rodolfo Amorim, em O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto, faz o exercício de trazer esse pensamento para a realidade brasileira.
Todos estão disponíveis na Biblioteca do Vitral na Amazon. Se você quer não apenas ler, mas discutir e aprofundar essas leituras com outras pessoas, o Clube do Livro do Vitral é o espaço certo — um benefício exclusivo da comunidade Vitralistas, onde lemos e debatemos juntos livros como esses.
Notas
1. Abraham Kuyper, Calvinismo (São Paulo: Cultura Cristã, 2002), palestra V, "Calvinismo e Arte," p. 165.
2. Ibid., p. 153.
3. Ibid., p. 165.
4. Ibid., p. 170.
5. Ibid., p. 155.
6. Ibid., p. 160.
7. Ibid., p. 161.
8. Ibid., p. 158.
9. Ibid., p. 161.
10. Ibid., p. 162.
11. Ibid., p. 162.
12. Ibid., p. 163.
13. Ibid., p. 173.
Medson Barreto, escritor, ator, palestrante e cofundador do Nosso Vitral.
O texto completo de Kuyper está disponível em português pela Editora Cultura Cristã.
Garanta seu livro aqui usando nosso link da Amazon. (Quando você compra usando nosso link, nós recebemos uma comissão, o que ajuda a sustentar o Vitral.)





Comentários