- Miller Leite

- 26 de fev.
- 3 min de leitura
Atualizado: 11 de mar.
O apocalipse das artes
Como o último livro da Bíblia influenciou a arte, a cultura e a imaginação humana
Em Guerra e Paz (1956), Cândido Portinari apresenta dois lados de sua época: de um lado, a denúncia da guerra e da violência humana; de outro, o apelo à paz, à esperança, à justiça e à celebração da vida. O Apocalipse retrata esses mesmos contrastes, mas muitas vezes e lembrado apenas por um lado do quadro. Palavras como guerra, morte, juízo, 666 e fim do mundo fazem parte do vocabulário mais comum quando se trata desse livro.
Não à toa, o último livro da Bíblia desperta, entre os mais diversos leitores, medo, curiosidade e especulações desde os primeiros séculos. O Apocalipse gerou muitas reflexões, não apenas teológicas e sociais, mas também deixou marcas profundas na cultura e na arte ao longo dos séculos. A questão que permanece é: será que ele se resume às imagens de guerra e morte, ou será que a "Revelacão de Jesus Cristo" tem um quadro muito oferecer?
1. O APOCALIPSE COMO REVELAÇÃO DE ESPERANÇA
Mais que juízos e guerras, o livro revela a vitória do Cordeiro e a promessa de um novo céu e uma nova terra. Há cores a contemplar, formas a descobrir, sons a escutar. Quem tem ouvidos, ouça; quem tem mente, imagine. Imagine alguém cercado pelo tumulto, sem firmeza interior, sendo conduzido com ternura a contemplar o trono de Deus: um mar de vidro eterno e luminoso. Essa visão renova a esperança - esperança que, como o mar de vidro, não tem fim.
Certamente uma visão tão sublime poderia ter sido pintada por Caspar David Friedrich, mas não foi. Foi revelada pelo próprio Jesus, diante dos olhos de todos os que leem as palavras da profecia.
2. ARTE COMO EXPRESSÃO LITÚRGICA
Muitos cultos carecem de uma verdadeira liturgia de celebração. O Apocalipse nos mostra uma celebração multiforme ao redor do trono: cânticos, metáforas e imagens poéticas. Cada expressão artística - música, dança, pintura, escultura - torna-se um eco dessa festa celestial, festa essa que já foi orquestrada por Handel em "O Messias".
Lembremos que cultuar com alegria não é apenas repetir um ato dominical, mas é celebrar a vida, a vitória do Cordeiro e o renovo de todas as coisas diariamente.
3. BELEZA NA RESISTÊNCIA
O Apocalipse denuncia o poder opressor do Império Romano e inspira coragem e fidelidade. A arte pode ser ato de resistência e liberdade, confrontando ídolos e falsos senhores. Como canta Zé Ramalho: "Eu prefiro o galope soberano à loucura do mundo me entregar." A verdadeira revolução não está nas armas, mas em erguer mãos e abrir lábios para vivo.
4. IMAGINAÇÃO CÓSMICA
As visões de tronos, anjos e da Nova Jerusalém abriram espaço para universos simbólicos e transcendentais. J. R. R. Tolkien, em O Senhor dos Anéis, criou um mundo rico em povos, cânticos e mitos que evocam o cenário glorioso contemplado por João. Essa imaginação cósmica nasce do desejo de explorar a vastidão do universo visível e invisível, moldado pelas mãos do Criador.
5. UMA NOVA CRIAÇÃO E UM NOVO POVO
Uma nova criação se revela, um novo povo se levanta. Homens e mulheres de todas as tribos, línguas e nações trazem a riqueza de suas culturas para honrar ao Senhor. Nesse novo tempo não há mais choro, dor, desmatamento ou corrupção. Eis que tudo se fez novo: a diversidade se torna unidade, a multiplicidade floresce em comunhão.
Diante do trono, o louvor se ergue como um rio de esperança, proclamando em diversos timbres e tons: "O Cordeiro reina para sempre." A história da redenção se conclui como o mais puro e belo dos dramas: um casamento.
Estão no jardim o Cordeiro e sua noiva; estão na cidade o povo e seu Deus. Enquanto esse dia não chega, saímos pelas ruas, montes e vales, pintando, dançando, anunciando e cantando que em breve Ele vêm. Como disse Nelson Cavaquinho: "O sol há de brilhar mais uma vez."




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