- Medson Barreto
- 8 de mai.
- 5 min de leitura
A Beleza salvará o mundo!
"A beleza salvará o mundo." A frase é de Dostoiévski. Ela aparece na obra O Idiota, posta na boca de um personagem que a lança como uma provocação. Mas Dostoiévski sabia exatamente o que estava dizendo, e o que estava dizendo tinha peso teológico.¹
Em 1868, em carta à sobrinha Sofia, Dostoiévski confessava sua busca pelo ideal mais elevado de beleza possível de ser representado em um personagem humano. Percorreu Dom Quixote, Jean Valjean, Samuel Pickwick. E chegou a uma conclusão que organizou toda a sua obra: "Só existe no mundo uma figura de beleza absoluta: Cristo. Essa figura infinitamente bela é, naturalmente, uma maravilha infinita (todo o Evangelho de João está repleto desse pensamento: Joao vê a maravilha da Encarnação, a aparição visível do Belo)."²
O mundo em que Dostoiévski escrevia estava em pleno processo do que Max Weber chamou de desencantamento. A razão moderna havia convencido a humanidade de que a realidade era matéria bruta, explicável em equações, controlável por método. Olhar para a água e ver H₂O, não o rio. Olhar para o céu e ver pressão atmosférica, não a glória. O universo encolhia, e a imaginação humana foi encolhendo com ele.³ ⁴
A arte foi chamada para preencher esse vazio. Nietzsche o disse sem rodeios: "A arte ergue sua cabeça onde as religiões declinam."⁵ O poeta Matthew Arnold foi na mesma direção: a poesia substituiria a religião como intérprete da vida humana.⁶ Mas ao assumir esse papel, a arte recebeu um peso que não é o seu, e passou a carregar o fardo de precisar justificar a própria existência.
A igreja respondeu ao mundo moderno nos termos do próprio mundo moderno. Priorizou a doutrina, a sistematização, a apresentação racional da fé. O caminho seguido foi aquele que Kant havia ordenado: primeiro a verdade, depois a ética, por último a beleza. A arte virou, na melhor das hipóteses, ilustração e ornamento. Dorothy Sayers já havia diagnosticado isso em 1944: “Não temos uma estética cristã – nenhuma filosofia cristã das artes”.⁷
O teólogo Hans Urs von Balthasar passou décadas propondo uma inversão dessa ordem. Para ele, o encontro com Deus começa pelo Belo. Cristo encarnado é a forma perceptível da glória de Deus, e antes de qualquer argumento ou exortação moral, há um encontro que espanta e move as bases sensoriais do ser humano. Mateus estava na coletoria quando Cristo passou. Bastou o olhar. "Segue-me."⁸
A beleza de que Balthasar fala não é harmonia nem leveza. Ela inclui a cruz. Dostoiévski sabia disso melhor do que ninguém. Seus romances são atravessados de desespero real, de personagens que carregam contradições irresolvíveis, e exatamente por isso são profundamente belos. A beleza cristã abrange até mesmo a feiura do pecado, "em virtude da condescendência do amor divino, que trouxe até mesmo o pecado e o inferno àquela arte divina para a qual não há análogo humano."⁹
Quando uma obra de arte desvela isso, ela faz algo que nenhum argumento consegue: abre o olhar para dimensões da realidade que o cotidiano vai entorpecendo. Uma pessoa sai de uma galeria e passa a ver os rostos ao redor de outro modo, como se a obra tivesse desinstalado o automatismo com que atravessava a vida. Rodolfo Amorim descreve exatamente esse movimento no capítulo 5 do livro, a partir de uma cena simples numa tarde de sábado.¹⁰
A pergunta mais funda para o cristão nas artes talvez seja esta: quem foi genuinamente tocado pela beleza de Cristo consegue produzir algo que não carregue esse toque? Dostoiévski não pregava em seus romances. Mas quem lê Crime e Castigo encontra a depravação humana e a possibilidade de redenção com uma clareza e uma força que a teologia sistemática com esforço busca alcançar por outros caminhos.¹¹
"A beleza salvará o mundo." A frase volta com outro peso. O cristão que produz arte não precisa transformar sua obra meramente num panfleto evangelístico. O que ele precisa é ter sido genuinamente alcançado pela beleza de Cristo, porque quem foi tocado por ela passa a enxergar o mundo de outro modo, e esse outro modo aparece no que ele faz. Cristo é o logos pelo qual todas as coisas foram feitas, e cada fragmento de beleza na criação carrega, para quem tem olhos para ver, uma etiqueta invisível: produzido na cruz de Cristo.¹²
Notas
¹ Dostoiévski, F. M. O Idiota. São Paulo: Editora 34, 2017.
² Dostoiévski, F. M. Carta à sobrinha Sofia Alexandrovna, 1868. In: Letters of Fyodor Michailovitch Dostoyevsky to his Family and Friends. Citado em: Amorim, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Cap. 4.
³ Weber, Max. Max Weber: Essays in Sociology, ed. H. H. Gerth e C. Wright Mills. Londres: Routledge, 1948/2004, p. 149, 155. Citado em: Amorim, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Cap. 1.
⁴ O exemplo da água como H₂O é de Hans Rookmaaker. Ver: Rookmaaker, H. R. A Arte Não Precisa de Justificativas. Viçosa: Editora Ultimato, 2010.
⁵ Nietzsche, F. Human, All Too Human. Londres: Penguin Books, 2004, p. 150. Citado em: Amorim, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Cap. 2.
⁶ Arnold, Matthew. Essays in Criticism: First and Second Series. Londres: J. M. Dent, 1880/1964, p. 235. Citado em: Amorim, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Cap. 2.
⁷ Sayers, Dorothy L. "Towards Christian Aesthetic". In: Demant, V. A. (Ed.) Our Culture: Its Christian Roots and Present Crisis. Londres: Wipf & Stock Publishers, 2018. Citado em: Amorim, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Cap. 3 e 4.
⁸ Balthasar, Hans Urs von. The Glory of the Lord: A Theological Aesthetics, Vol. 1: "Seeing the Form". São Francisco: Ignatius Press, 1982. Citado em: Amorim, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Cap. 4.
⁹ Balthasar, Hans Urs von. The Glory of the Lord: A Theological Aesthetics, Vol. 1: "Seeing the Form". São Francisco: Ignatius Press, 1982, p. 99. Citado em: Amorim, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Cap. 4.
¹⁰ Amorim, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Cap. 5.
¹¹ Amorim, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Cap. 4. Ver também: Turner, Steve. Cristianismo Criativo? São Paulo: W4 Editora, 2007, p. 150.
¹² Balthasar, Hans Urs von. The Glory of the Lord: A Theological Aesthetics, Vol. 1: "Seeing the Form". São Francisco: Ignatius Press, 1982, p. 99. Citado em: Amorim, Rodolfo. O Cristão e a Arte em um Mundo em Desencanto. Cap. 4. Ver também: Colossenses 1.16-18.
Medson Barreto, escritor, ator, palestrante e cofundador do Nosso Vitral.
O Clube do Livro do Vitral está lendo O Cristão e a Arte em Mundo em Desencanto. Este texto são algumas reflexões a partir da discussão que tivemos.
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