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Atualizado: 16 de mai.

O que Kuyper entendeu que a maioria dos cristãos ainda ignora


A maioria dos cristãos vive, na prática, como deísta. Acreditamos que Deus criou o mundo, está disponível para oração e terá a última palavra no fim da história; e pensamos em categorias morais inspiradas na Bíblia — não mentir, não roubar, amar o próximo. Mas, além disso, a fé parece ter pouco a dizer sobre o que vivemos entre um culto e outro: o trabalho, a arte, a ciência, a universidade, a vida doméstica. O Evangelho salva, isso está claro. Mas será que ele também forma?

 

Essa separação tem nome: dualismo. E ela não vem do Evangelho.

 

Em 1898, o teólogo e estadista holandês Abraham Kuyper apresentou seis palestras na Universidade de Princeton, publicadas posteriormente sob o título Calvinismo. O livro não é um manual de doutrina nem uma defesa partidária de uma denominação. É uma tentativa de mostrar que a fé cristã tem algo a dizer sobre cada dimensão da existência humana. Relê-lo hoje é um exercício útil para quem quer pensar com mais coerência sobre fé e cultura.

 

O cristianismo como sistema de vida

O primeiro movimento de Kuyper é definir o que ele chama de sistema de vida. Ele usa essa expressão para o Calvinismo especificamente, mas o argumento tem alcance mais amplo: toda cosmovisão é um sistema de vida. O Modernismo tem o seu. O Islamismo tem o seu. E o cristianismo também tem o seu — ou deveria ter.

 

Um sistema de vida não é apenas um conjunto de doutrinas corretas ou um código de ética pessoal. É uma forma de enxergar a realidade inteira: de onde vem o mundo, o que o ser humano é, o que está errado com a história, o que é possível esperar. Kuyper argumenta que o problema de boa parte do protestantismo de seu tempo era exatamente esse: reduzir a fé a algumas convicções soteriológicas e algumas práticas de piedade, deixando o restante da vida sem orientação.

 

Prefiro usar aqui a expressão "Cristianismo" onde Kuyper usa "Calvinismo". Não porque a tradição reformada não tenha contribuições específicas a fazer — ela tem, e este texto vai explorá-las. Mas porque o movimento central que Kuyper descreve não é propriedade de uma tradição. É uma exigência do próprio Evangelho: se Cristo é Senhor sobre tudo, então tudo está dentro do seu domínio.

 

A criação como ponto de partida

A criação é o fundamento teológico do argumento. Deus não fez um mundo para ser abandonado ou apenas suportado. Fez um mundo bom, estruturado por ordenanças que lhe são próprias — ordenanças que o pecado deturpou, mas não destruiu. A redenção em Cristo não cancela a criação; ela a restaura e a direciona ao seu propósito original.

 

A partir daí, Kuyper desenvolve uma ideia que atravessa todo o livro e que filósofos posteriores, como Herman Dooyeweerd, aprofundariam: cada esfera da vida humana possui uma autoridade e uma lei internas que lhe foram dadas na criação. A família, a arte, a ciência, o Estado, o comércio — cada uma dessas esferas existe por direito próprio, anterior a qualquer instituição humana. Nenhuma deriva sua legitimidade da Igreja, nem precisa da aprovação do Estado para ser válida. Como Kuyper afirma:

"a família, os negócios, a ciência, a arte e assim por diante, todas são esferas sociais que não devem sua existência ao Estado, e que não derivam a lei de sua vida da superioridade do Estado, mas obedecem uma alta autoridade dentro de seu próprio seio."¹

 

Isso significa que um escritor que conta uma boa história, um cientista que pesquisa com rigor, um político que governa com justiça — todos estão cumprindo algo que lhes foi dado na criação, independente de confessarem ou não uma fé cristã. Significa também que a Igreja não é o centro do qual tudo deve irradiar, mas a comunidade que adora e forma pessoas para viverem fielmente nas esferas onde já estão.

 

Graça comum e a presença de Deus no mundo

Kuyper nos lembra da distinção teológica entre graça especial e graça comum. A graça especial opera a salvação. A graça comum é aquela pela qual Deus "suaviza a maldição que repousa sobre ele [o mundo], suspende seu processo de corrupção, e assim permite o desenvolvimento de nossa vida sem obstáculos."²

 

Isso explica uma experiência que todo cristão reconhece, mas nem sempre sabe interpretar: a de encontrar verdade, beleza e justiça fora dos limites da comunidade de fé. Um filme feito por um diretor não cristão que captura algo profundamente verdadeiro sobre a condição humana. Uma lei aprovada que protege o mais fraco. Uma obra de arte produzida por alguém que nunca abriu uma Bíblia, mas que direciona nosso olhar ao que é bom e belo.

 

Kuyper não pede que o cristão trate essas realidades com suspeita. Pelo contrário, cita Calvino para dizer que muitas vezes "estas radiações da Luz Divina brilham mais fulgurosamente entre povos incrédulos do que entre santos de Deus."³ A graça comum não apaga a distinção espiritual entre quem vive à luz do Evangelho e quem não vive. Mas impede que essa distinção se transforme em um muro que separa o cristão da riqueza do que Deus sustenta no mundo mais amplo.

 

Arte, ciência e política: esferas com leis próprias

Partindo desses fundamentos, Kuyper aplica os princípios a quatro esferas concretas.

 

Sobre a arte, Kuyper afirma: "A arte não é a franja que está atada à roupa, nem o entretenimento que é adicionado à vida, mas um poder mais sério em nossa presente existência."⁴ Calvino entendia que "todas as artes vêm de Deus e devem ser consideradas como invenções divinas."⁵ O cristão que faz arte não precisa tornar sua obra explicitamente religiosa para que ela seja fiel. O que precisa é trabalhar dentro das leis próprias da arte — beleza, forma, verdade — com a percepção de que a beleza tem origem em Deus. A arte boa já é, nesse sentido, uma forma de fidelidade. E a arte feita sem esse cuidado não se torna melhor por ter um versículo na legenda.

 

Sobre a ciência, o argumento parte da convicção de que o cosmos obedece a ordenanças fixas porque foi criado por um Deus ordenador. O mundo tem estrutura a ser descoberta. O cristão na ciência trabalha com rigor dentro do método científico, sabendo que o cosmos que investiga é obra de um Criador. A graça comum explica por que a ciência pode florescer amplamente: os dons intelectuais que ela exige são distribuídos por Deus sem restrição confessional.

 

Sobre a política, Kuyper argumenta que o Estado tem papel próprio e legítimo — garantir justiça, conter o mal, proteger os mais fracos. Mas o Estado não pode absorver todas as esferas da vida. "O Estado nunca pode tornar-se um octópode que asfixia a totalidade da vida."⁶ Quando o Estado invade a família, a ciência, a arte ou a Igreja, ele viola a soberania que Deus atribuiu a cada uma dessas esferas na criação. O cristão na política não leva a agenda da Igreja à esfera pública; leva convicções formadas pela fé que o orientam a agir pelo bem de todos, crentes e não-crentes.

 

Sobre a Igreja, Kuyper é preciso: ela existe para adorar, proclamar e formar. Quando tenta governar as outras esferas a partir de dentro, distorce tanto a si mesma quanto essas esferas. Graças à Reforma Protestante, afirma ele, "a Igreja retrocedeu a fim de ser nada mais nada menos que a congregação de crentes, e em cada departamento a vida do mundo não foi emancipada de Deus, mas do domínio da Igreja."⁷

 

Diagnósticos e esperanças frustradas

A sexta e última palestra tem um tom diferente. Kuyper volta o olhar para o que está acontecendo na Europa. O que vê é o Modernismo avançando, especialmente na França e na Alemanha, como um sistema de vida alternativo ao cristão, construído sobre a autonomia humana sem qualquer referência a Deus. O resultado, em sua análise, era visível: instabilidade política, imoralidade sexual, avanço de um pessimismo filosófico incapaz de oferecer sentido para a existência, um materialismo crescente que reduzia o ser humano às suas condições econômicas e igrejas que, ao abraçar a teologia liberal, haviam aberto mão da confissão histórica para agradar o espírito do tempo.

 

Lendo isso hoje, é impossível não pensar no que veio nas décadas seguintes às palestras: as duas Guerras Mundiais, que jogaram um balde de água fria sobre o otimismo ingênuo de uma Europa cristã; e a secularização acelerada da própria Holanda — o país de Kuyper —, que em poucas décadas se tornaria um dos mais irreligiosos do mundo, apesar de toda a herança reformada que ele tanto valorizava. Seu diagnóstico acabou sendo mais certeiro do que suas esperanças no futuro da tradição reformada.

 

As limitações de Kuyper

As palestras foram proferidas em 1898, num contexto norte-americano ainda confiante no projeto da civilização ocidental cristã. Há no livro uma hierarquia entre civilizações que reflete o pensamento colonial de fins do século XIX: Kuyper organiza a história em estágios evolutivos e trata povos não-europeus com o paternalismo típico da época. Essa estrutura precisa ser reconhecida como produto do tempo, não como princípio teológico.

 

Kuyper é muito crítico ao Anabatismo, duro com Lutero em vários pontos, e constrói boa parte de seu argumento em contraste com o Catolicismo Romano. Há um tom de disputa que às vezes obscurece o que poderia ser diálogo, criando a impressão de que a resposta cristã à cultura é monopólio dos calvinistas.

 

Vale, aqui, citar o próprio Kuyper contra si mesmo. No último capítulo, ao tratar das igrejas reformadas, ele escreve: "Até mesmo para a Igreja que tem a confissão mais pura, eu não dispensaria a ajuda de outras igrejas, a fim de que sua inevitável unilateralidade pudesse assim ser completada."⁸ A riqueza do Corpo de Cristo é distribuída, não concentrada. Presbiterianos, Batistas, pentecostais, anglicanos, católicos romanos — cada tradição carrega ênfases, práticas e formas de ver o mundo que as outras precisam. Não porque todas digam a mesma coisa, mas porque nenhuma diz tudo.

 

Uma fé que habita o mundo

Os limites do livro não cancelam sua contribuição central. O movimento que Kuyper descreve é simples e exigente: a fé cristã não é um departamento da vida. Ela é uma forma de ver e habitar a realidade inteira. O artista, o cientista, o político e o pastor estão todos, cada um em sua esfera, respondendo à mesma vocação fundamental.

 

A graça comum nos lembra de que Deus já está trabalhando no mundo — sustentando a criação, distribuindo dons, preservando o que é bom. Nenhum espaço da vida pública é território inimigo. É território de Deus, onde a graça já operou.

 

A soberania das esferas diz como habitá-lo: cada esfera tem suas próprias leis, e fidelidade começa por respeitá-las. O cristão que ignora isso em nome de uma agenda religiosa não serve melhor a Deus — produz arte ruim, ciência desonesta ou política que confunde Reino de Deus com poder institucional. Servir a Deus em cada esfera exige, antes de tudo, levar cada esfera a sério.

 

Como Kuyper formula: "a maldição não deveria mais repousar sobre o mundo em si, mas sobre aquilo que é pecaminoso nele, e em vez de vôo monástico do mundo o dever de servir a Deus no mundo, em cada posição na vida, é agora enfatizado."⁹ A fé que ainda não chegou até aí tem um longo caminho a percorrer.

 

Notas

1. Abraham Kuyper, Calvinismo (São Paulo: Cultura Cristã, 2002), palestra III, "Calvinismo e Política," p. 98.

2. Ibid., palestra I, "O Calvinismo como Sistema de Vida," p. 38.

3. Ibid., palestra V, "Calvinismo e Arte," p. 168.

4. Ibid., palestra V, "Calvinismo e Arte," p. 158.

5. Ibid., palestra V, "Calvinismo e Arte," p. 150.

6. Ibid., palestra III, "Calvinismo e Política," p. 103.

7. Ibid., palestra I, "O Calvinismo como Sistema de Vida," p. 39.

8. Ibid., palestra VI, "Calvinismo e o Futuro," p. 203.

9. Ibid., palestra I, "O Calvinismo como Sistema de Vida," p. 39.


  • Medson Barreto, escritor, ator, palestrante e cofundador do Nosso Vitral.


Kuyper também já foi tema no Vitral Podcast. Se preferir ouvir antes de ler, este corte é um bom ponto de entrada.





O texto completo de Kuyper está disponível em português pela Editora Cultura Cristã.

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