- Medson Barreto
- 2 de mar.
- 4 min de leitura
Atualizado: 11 de mar.
O grito da arte
Por um olhar que veja a arte como deleite, espelho e janela
Certa vez, um professor de artes mostrou o quadro O Grito, de Edvard Munch, a uma turma de crianças de 10 anos. Elas nunca tinham visto aquela imagem. Uma disse que parecia uma criança sozinha e com medo. Outra enxergou a tragédia de Brumadinho. E, por fim, uma menina disse: “Esse cara tá olhando pra mim. Ele não está desesperado com o que está acontecendo lá atrás, mas com o que a gente está fazendo com o mundo”.
Esse grito transcende o quadro. É o grito da arte. O próprio Munch descreveu o quadro como fruto de um momento de angústia em que “sentiu um grito passando pela natureza”. O que ele pintou não foi apenas uma paisagem, mas um clamor da alma. Sua dor se tornou cor, forma e traço, visível ainda hoje.
Esse quadro nos lembra de que toda arte, em alguma medida, é um grito. Às vezes pessoal, nascido do íntimo do artista; às vezes coletivo, expressão de uma cultura ou época. O filósofo Hans Rookmaaker afirma: “A arte de cada período é uma expressão pura do espírito daquele período.”1 Se queremos entender uma sociedade, precisamos escutar o que sua arte está gritando.
Desde os primeiros registros artísticos da humanidade, percebemos um clamor por algo maior. As pinturas na Caverna de Lascaux na França, os zigurates mesopotâmicos, as pirâmides egípcias, as estatuetas de Vênus de Willendorf, o Teatro de Dionísio na Grécia: tudo isso era arte com função religiosa. O ser humano, em todas as culturas, sempre expressou através da arte seu anseio pelo eterno. A arte nasce, assim, como um grito de saudade de Deus.
Durante a Idade Média, a arte esteve profundamente ligada à Igreja. Era a Igreja quem encomendava e financiava as principais obras: desde catedrais a vitrais, esculturas, pinturas e músicas. O canto gregoriano, o teatro sacro, os mosaicos bizantinos e a arquitetura gótica eram expressões visuais e sonoras de uma fé encarnada na cultura.
Mas algo começa a mudar com o Renascimento e, mais adiante, com a Reforma. O filósofo Gilles Lipovetsky2 aponta que, se da Antiguidade à Idade Média a arte era “para os deuses”, na Modernidade ela passou a ser “para os príncipes”, financiada por nobres e elites, ganhando novos temas e estilos. Depois, surgiria a “arte pela arte”, onde o artista se torna uma espécie de gênio criador, livre das amarras religiosas ou políticas. E então, finalmente, no mundo Contemporâneo a arte se torna produto de mercado, vendida diretamente ao povo, moldada pelo gosto das massas.
Com a Reforma, especialmente nos países influenciados pelo Calvinismo, a arte foi, em certa medida, desvinculada do culto. Abraham Kuyper argumenta que a religião e a arte, embora tenham raízes comuns, ganham esferas distintas. Isso não significa que a arte não tenha relação com a fé. Pelo contrário, Kuyper afirma que a arte cristã é aquela que, mesmo em meio a um mundo caído, nos faz lembrar a beleza original da criação, denuncia as dores da queda, e antecipa, pela imaginação, a sua restauração final.3
A arte, portanto, é uma dádiva da graça comum de Deus e uma expressão cultural humana. Uma expressão que grita nossa busca por sentido. E que não apenas expressa cosmovisões, mas também as forma. O autor brasileiro Bruno Maroni propõe que a cultura pode ser lida como um “mundo-texto”4. Inspirado no teólogo Kevin Vanhoozer, ele nos convida a perguntar: Quem fez esta obra e por quê? O que ela significa? Que efeito tem sobre aqueles que o recebem, usam ou consomem? O que ela diz sobre o que é o ser humano?
Toda obra de arte carrega dentro de si uma cosmovisão, mesmo que o próprio artista não a perceba. Como define James Sire, cosmovisão é um compromisso profundo do coração, que orienta como vemos e vivemos a realidade5. E, como aponta James K. A. Smith, essas visões de mundo nos formam não apenas por ideias, mas por meio de histórias que moldam nossos desejos e afetos. A arte nos cativa porque nos conta histórias e é nessas histórias que aprendemos o que é belo, bom e verdadeiro6.
Como cristãos, não somos chamados a julgar apressadamente os gritos da cultura, mas a escutá-los com discernimento e compaixão. Por isso, é preciso desenvolver um olhar atento e amoroso. Um olhar que veja a arte como deleite (um bem cultural a ser apreciado com gratidão), como espelho (percebendo como ela reflete e molda nossa própria visão de mundo) e como janela (para enxergar o outro, seu clamor, seu anseio, sua busca).
Quando uma música estoura nas plataformas, quando um filme bate recordes de bilheteria, quando uma estética domina as redes, ou mesmo na arte considerada indie, há sempre um grito ali. Pode ser um grito de dor, de prazer, de busca por identidade ou pertencimento, ou até um grito contra Deus; mas ainda assim é um eco de algo mais profundo: o desejo humano por sentido, por beleza, por redenção.
As pessoas estão gritando através da arte. A pergunta é: será que como cristãos estamos ouvindo?
Artigo publicado originalmente no portal da Ultimato. Leia aqui.
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