- Jadson Dias

- 26 de fev.
- 3 min de leitura
Atualizado: 11 de mar.
Memória e Esperança: um olhar poético sobre O Agente Secreto
“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.”
Para alguém morrer, não precisa ser morta — basta que apaguem suas memórias.
Em seu documentário Retratos Fantasmas (2023), Kleber Mendonça Filho — também diretor de O Agente Secreto — faz questão de pontuar algo fantástico e metalinguístico:
“Filmes de ficção são os melhores documentários.”
Essa frase é um trunfo, pois dá liberdade poética ao documentário, permitindo-lhe ter toques de ficção.
Agora, em 2025, Kleber faz de seu novo filme de ficção um poderoso documentário sobre o Recife dos anos setenta.
É uma viagem no tempo — como ver fotografias e ser teletransportado para memórias que nem vivemos. E o filme é sobre isso: sobre lembranças, sobre o preço de mantê-las vivas.
Ao trazer à tona Tubarão (1975, Steven Spielberg), Kleber é certeiro em agregar contexto histórico, amor ao cinema e um suspense constante. Cria uma atmosfera de medo e incerteza que nos alerta de que o inimigo está sempre à espreita — escondido entre as águas, devorando pernas cabeludas.
Em 1977, Marcelo, um professor de tecnologia, muda-se de São Paulo para Recife para escapar de um passado violento. No entanto, ao chegar durante o Carnaval, percebe que o caos o seguiu: passa a ser vigiado pelos vizinhos e descobre que a cidade que buscava como refúgio se transforma em novo pesadelo.
A mãe do protagonista está morta, mas ninguém nasce sem mãe. Ele precisa de pelo menos um documento, um vestígio que garanta sua origem — algo que impeça que ela morra de vez. Em certo momento, ao conversar com seu filho, ele diz que sempre que lembramos de alguém, essa pessoa está presente de alguma forma.
“Acho que estou quase esquecendo a mamãe.” diz seu filho! — há dias em que isso soa como alívio, pois o luto é pesado, especialmente para uma criança. Mas o esquecimento também revela o quanto a existência dela começa a desaparecer.
O agente oculto é o apagador de gente. Destruidor de nomes, de memórias, de rastros. Ele faz o que mandam: troca identidades, apaga histórias. Mas para viver de verdade é preciso sentir-se vivo — e lutar pela própria existência é o gesto mais humano que existe. Catarse. Frevo!
Se ninguém lembra, ninguém se importa. No máximo, uma folha de jornal — ou pior, um número a mais nas estatísticas da morte.
O Carnaval de Recife sempre foi sinônimo de folia... e de “limpeza”.
“Esse número vai aumentar, hein?”
Claro que vai. Se cavarmos o que foi escondido, entulhado, arquivado e quase queimado, veremos o quanto já se tentou apagar.
Ao ver sua cidade destruída — templos queimados, vozes caladas, memórias soterradas — o profeta Jeremias escreveu suas Lamentações. O verso lembrado no início nasce do pranto do profeta: entre as cinzas de Jerusalém, ele decide lembrar — não apenas do que perdeu, mas do Deus que permanece fiel, mesmo quando tudo parece apagado. Sua cidade estava em ruínas, e seu povo, esquecido. Ainda assim, ele ousou dizer: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.”
Como Jeremias, Kleber Mendonça olha para as ruínas do Recife e insiste em lembrar. Seu cinema faz com as imagens o que o profeta fez com as palavras: reconstrói a cidade pela memória, resgata o que tentaram enterrar. Porque lembrar — seja de Jerusalém ou do Recife — é um ato de esperança, e também de resistência.
O diretor faz de seu filme de ficção um documentário da realidade. Com ecos de um passado ainda presente, ele transforma O Agente Secreto em seu poema de Niemöller — um aviso de que não adianta se importar seletivamente com o apagamento histórico.
Esquecer crianças, famílias e povos é o começo da ruína de uma sociedade.
Mas está na hora de encarar o que nos aflige — juntar os pedaços, tentar remontar o quebra-cabeça.
Imaginem não ter o que lembrar: que doloroso! E não ter esperança: que desesperador!
Ainda bem que temos o registro — a palavra poderosa, que não esconde os erros, mas aponta para quem não esquece de ninguém e nos devolve a vida.


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