- Misael Antognoni

- 13 de abr.
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Arte e Avivamento
Esta semana vi o seguinte comentário de Marcos Almeida em uma postagem do cantor Dani Black: “médico de almas”, disse ele, referindo-se à generosidade do Dani ao ofertar de forma pessoal a canção Segunda Chance às pessoas que estão com o coração partido e que precisam de forças pra seguir a vida. No vídeo, alguém aceita sentar à frente do artista para então receber uma dose de consolo e coragem pra recomeçar. Artistas fazem isso constantemente, porém sem usar dipirona, antibiótico ou Rivotril – apenas a arte e tudo quanto cabe dentro dela.
Diariamente, diversos tipos de expressões artísticas têm salvado muita gente da falência dos sonhos e do desespero da vida. Parece muito empírico o que digo, mas o que falo pode ser facilmente constatável quando vemos alguém citando uma canção que lhe trouxe cura. Outros, mais entusiasmados, literalmente cantam e botam pra fora emoções avassaladoras relacionadas ao sofrimento que passou. Me arrisco a dizer que a maioria das pessoas, em algum instante, foram socorridas por Deus através de uma canção, sabe lá de quem, mas foi. Do mesmo modo, avivamentos silenciosos podem acontecer no coração de muita gente através de canções, e aqui não me refiro a um fenômeno amplo e coletivo, mas a uma reviravolta individual.
Não é raro que missionários e pastores citem canções que os acompanharam nas horas mais cruciais do ministério, assim como é difícil encontrar um artista que, em momentos de extrema angústia e dor, não tenha buscado alívio na criação de alguma arte.
A arte pode ser remédio e, em alguma medida, artistas podem ser pastores de almas.
O compositor e cantor Jorge Camargo segue nessa mesma direção ao cantar que artistas são pastores de palavras. Ele evoca nomes como Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira — criadores que, embora fora dos apriscos da religião, frequentemente tocavam a alma humana, promovendo revelações quase que divinas sobre a vida. Nesta mesma canção, Camargo também reconhece como artistas personagens bíblicos como Isaías, com sua erudição; Ezequiel, com suas visões; Jeremias, com sua paixão profética; e Daniel, com seus sonhos. No refrão ele diz: “eles são pastores de palavras, verdadeiros mestres e artesãos, que nos fazem ver o mundo nas asas da imaginação / nas tramas da revelação.”
Quando pensamos no plano redentivo de Deus e qual o papel da arte diante disso tudo, poderíamos fatalmente pensar que Deus não precisa de artistas para cumprir seus propósitos e fazer nova todas as coisas. Infelizmente li isso de um pastor nas redes sociais: “Deus não precisa de artistas”! Mas a graça disso tudo é que apesar de Ele não precisar, Ele decidiu usar artistas para que o seu Reino avance, seja em corações individuais ou em demonstrações públicas de um tempo vindouro.
Agora, observe a arte para além de seu aspecto litúrgico e pense na figura de uma árvore que cresce por dentro da terra, participando de um ciclo que mantém o solo saudável, mas que também se projeta para fora em exuberância. A história nos mostra que a Reforma Protestante, diante da arte, foi como essa árvore: embora tenha suas raízes na fé, precisa crescer para fora e expressar verdade e beleza. Os artistas que outrora tocavam sinos, chamando o povo à adoração, ou aqueles que pintavam vitrais, oferecendo o “evangelho àqueles que não podiam ler”, passaram a ser impactados por uma mensagem que reivindicava não apenas os sinos da catedral, mas a cidade inteira; não apenas os vitrais da igreja, mas também galerias, praças e calçadas.
Steve Turner (2006, p.37) em Cristianismo Criativo comenta o forte papel da Reforma que enfraqueceu a autoridade do catolicismo como benfeitor dos artistas, quando exigia que apenas temas religiosos fossem feitos por estes. A Reforma incentivou pinturas de paisagens, retratos de famílias, aspectos da natureza, cidades estrangeiras, dentre outros. Era uma compreensão de que Deus tinha interesse também na vida comum como parte da espiritualidade.
Pensando ainda nesse paradigma da arte e os seus efeitos no Reino, o teólogo Makoto Fujimura (2022) em sua obra Arte + Fé desenvolve um conceito chamado de Teologia do Encanamento, o qual consiste na missão do artista de ir além do ato de consertar. Se fomos redimidos e vivemos em novidade de vida, argumenta ele, precisamos nos perceber como cocriadores de Deus em direção a uma arte nova que almeja a plenitude da nova criação. Para Makoto, os artistas devem não só consertar os encanamentos quebrados (arte, cultura de modo geral), mas restaurá-los com beleza e celebração. Os artistas devem ver além desses canos quebrados, os quais, na sua analogia, são onde deve fluir o sangue de Cristo para restaurar e rejuvenescer a terra. Pensar desse modo significa produzir uma arte inspirada na plenitude das coisas, o que eu chamaria de avivamento final, pois aponta a vida plena na Nova Jerusalém. Artistas, não se limitem a ser apenas uma resposta cultural de um tempo, mas sejam uma afirmação da verdade, bondade e beleza!
“O que você faz no Senhor não é em vão. Você não está lubrificando as rodas de uma máquina que está prestes a rolar sobre um penhasco. Você não está restaurando uma pintura que em breve será jogada no fogo. Você não está plantando rosas em um jardim que está prestes a ser arrancado para uma construção. Você está – por mais estranho que possa parecer, quase tão difícil de acreditar quanto a própria ressurreição – realizando algo que, no devido tempo, se tornará parte do novo mundo de Deus”. (p. 208)
Chegamos no ponto: nada no Senhor é em vão!
Vivemos no intervalo entre a primeira obra — a Criação — e a segunda — a Nova Criação. Ele está fazendo novas todas as coisas, e os artistas participam disso. Você, artista, participa disso!
Não se deixe levar pela ideia de que sua arte não terá relevância. Não se frustre com os poucos ouvintes nos streams ou com a pouca visibilidade da sua obra – lembre-se, Deus a fez em parceria com você, e, portanto, Ele não fica desapontado com quantidades. Às vezes o propósito de uma arte é só “acordar alguém que dorme”, em outros casos é conversas com multidões...
O que compete ao artista é apontar para o que é Divino, mas somente o próprio Divino – DEUS - carrega a plenitude da beleza e da glória capazes de revelar o sentido real de todas as coisas – e isso independe das nossas pretensões diante do que fazemos.
Pense no caso do artista Domenico Fetti, um pintor barroco que dedicou toda a sua vida para a arte e durante muito tempo prestou serviços ao cardeal católico Ferdinando Gonzaga. Fetti faleceu em 1623, aos 34 anos, partiu sem jamais imaginar que uma de suas obras seria o instrumento usado por Deus que desaguaria em um dos maiores avivamentos da história do cristianismo. Estamos falando do quadro Ecce Homo (“eis o homem”), exposto em uma galeria de arte em Düsseldorf, na qual Cristo é retratado com um semblante de dor. Através desta obra o coração de um nobre alemão, o duque Nikolaus Zinzendorf, foi constrangido pela graça e amor ao ponto de ele entregar toda a sua herança para abrigar cristãos e formar missionários que se espalhariam por todo o mundo.
Pare pra pensar: um dos maiores avivamentos da história do cristianismo – e aqui me refiro agora a um fenômeno de multidões e gerações – teve a sua nascente através de uma obra de arte! Isso não ocorreu dentro de uma igreja fechada. Não começou a partir de uma consagração dentro de um mosteiro, tampouco em uma cruzada diante de multidões. Começou em uma galeria de arte!
Enquanto Fetti pintava “Ecce Homo”, ele apenas entregava aos homens uma obra de arte. Assim fazem os artistas, eles entregam suas artes sem saber onde ou quando alguém vai ser despertado, ou se uma “epifania” há de acontecer podendo o mundo todo ser abalado...
A lição diante da obra de Fetti é mais um caso dentre os incontáveis avivamentos individuais ou coletivos que Deus quis promover a partir da arte.
Nós, cristãos artistas, podemos ser pintores da vida, pastores de almas, salmistas da existência, construtores de um mundo novo, tendo absoluta paz na nossa vocação sabendo que nada será em vão. Portanto, continue: exponha sua obra na galeria.
Antognoni Misael, músico, musicoterapeuta, historiador, artista do Coletivo Candiero.




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