- Jadson Dias

- 17 de jun.
- 4 min de leitura
A Saga do Tri e a crença do brasileiro
Em anos marcados por grandes acontecimentos mundiais, é comum que produções audiovisuais surjam para revisitar temas que voltam ao centro das atenções. E o evento da vez, mais uma vez, é a Copa do Mundo de futebol masculino. Além dos inúmeros documentários sobre esporte lançados recentemente, a Netflix investiu pesado no resgate do imaginário brasileiro e produziu uma minissérie sobre um dos momentos mais grandiosos da história da nossa seleção: o tricampeonato mundial de 1970.
Já se passaram mais de cinquenta anos daquela vitória histórica do Brasil sobre a então bicampeã mundial Itália. O placar de 4 a 1 ficou marcado na memória coletiva não apenas pelo resultado, mas pela forma como aconteceu: um jogo vibrante, cheio de lances memoráveis, coroando a trajetória de uma equipe que entrou para a história do futebol.
Naná Xavier e Rafael Dornellas, criadores e roteiristas da obra, entendem bem a dimensão desse feito e o fascínio que grandes histórias exercem sobre o público. Por isso escolhem cuidadosamente o arco narrativo que desejam contar, utilizando uma linguagem que mistura documentário e dramatização.
A série é envolvente desde os primeiros episódios. O ritmo acelerado faz com que seja difícil assistir apenas um capítulo por vez. Os protagonistas — João Saldanha (Rodrigo Santoro), Zagallo (Bruno Mazzeo) e Pelé (Lucas Agrícola) — carregam muito do imaginário brasileiro. Pouco precisa ser explicado sobre o Rei do Futebol ou sobre o Velho Lobo. Por isso, o destaque dado a Saldanha funciona tão bem. Na interpretação de Rodrigo Santoro está boa parte da força dramática da série.
Mas o que mais impressiona é ver o Brasil retratado não apenas como cenário, mas como personagem. Não seria possível contar essa história com relevância sem mostrar um pouco do país daquela época: um povo que, apesar das dificuldades, parava para acompanhar a seleção nas casas, nos bares, nas ruas e até nas arquibancadas do México, onde a Copa de 1970 foi disputada.
O que mais fascina, porém, é perceber o quanto o brasileiro é um povo de fé. Um povo cheio de crenças, superstições e pequenos rituais criados para afastar o azar ou atrair a sorte. E é justamente nesse ponto que a série me levou a refletir.
De onde vem esse Brasil místico? E o que isso revela sobre o cristianismo brasileiro?
O brasileiro, em geral, sempre teve uma tendência a enxergar o mundo como um lugar povoado por forças invisíveis que influenciam os acontecimentos cotidianos. Daí surgem o medo do azar, os amuletos, as simpatias, as promessas, as "manias" esportivas e toda sorte de rituais que pretendem controlar o imprevisível. Afinal, quem nunca viu alguém rezando para o adversário perder um pênalti?
Esse "Brasil místico" não nasceu exatamente do cristianismo. Ele é fruto de séculos de encontro entre tradições indígenas, africanas, portuguesas e cristãs. Talvez por isso nossa religiosidade seja tão rica e, ao mesmo tempo, tão complexa. Somos um povo tão miscigenado que, na hora do aperto, parece que tentamos conversar com todos os céus ao mesmo tempo.
No futebol, isso aparece de forma quase caricatural. A camisa da sorte, o lugar fixo no sofá, a barba que não pode ser cortada durante a Copa, a mesma comida antes dos jogos decisivos. Zagallo se tornou um símbolo desse comportamento por sua relação quase mítica com o número 13. E a série retrata essas superstições de forma leve e divertida, nos fazendo rir de nós mesmos.
O mais curioso é que esse imaginário não desapareceu com o crescimento do protestantismo nas últimas décadas. Em muitos aspectos, ele apenas mudou de roupa.
Martinho Lutero dizia que "a fé é uma confiança viva e ousada na graça de Deus". Já João Calvino escreveu que "o coração humano é uma fábrica perpétua de ídolos".
Embora os reformadores defendessem uma fé baseada na confiança em Deus e nas Escrituras, a religiosidade popular continua encontrando maneiras de buscar segurança diante das incertezas da vida.
Talvez por isso algumas práticas presentes em parte do evangelicalismo brasileiro lembrem estruturas muito antigas do nosso imaginário religioso: objetos ungidos, campanhas para quebrar maldições, números considerados especiais, interpretações constantes de acontecimentos como sinais sobrenaturais e uma busca quase permanente por garantias espirituais.
É claro que fé e superstição não são a mesma coisa. Mas às vezes a linha entre confiar em Deus e tentar controlar os resultados pode ficar mais tênue do que imaginamos.
Talvez o "Brasil místico" revele justamente uma característica muito humana: nossa dificuldade em lidar com a incerteza. Quando não sabemos o que vai acontecer, procuramos sinais. Criamos rituais. Buscamos algum tipo de controle sobre aquilo que escapa das nossas mãos.
Nesse sentido, Zagallo e sua relação com o número 13 são mais do que uma curiosidade do futebol brasileiro. Eles refletem algo presente em muitos de nós. A necessidade de acreditar que existe algum significado escondido por trás dos acontecimentos e que, de alguma forma, podemos influenciar o destino.
No fim das contas, talvez a grande pergunta não seja por que o brasileiro é tão supersticioso. Talvez a pergunta seja outra: por que nós, seres humanos, temos tanta dificuldade em simplesmente conviver com o desconhecido?
Jadson Dias, estudante de Teologia.




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