- Ramon Souza

- 29 de abr.
- 4 min de leitura
Agricultura e Mordomia Cultural
Março é um mês crucial para quem vive na roça (esse é meu caso). É tempo de observar o clima: “Será que vai ter chuva esse ano?” “Vale a pena investir tempo e esforço para plantar?” São perguntas que rondam a cabeça enquanto a enxada fere a terra, preparando o solo para plantar milho, amendoim, feijão e abóbora, na esperança de que em junho seja aquela fartura! Mas há outra pergunta que permeia a minha mente enquanto trabalho: o que a agricultura tem a nos ensinar sobre a relação do cristão com a cultura?
Makoto Fujimura, em Cuidado Cultural, diz:
“o pensamento recente no campo da agricultura oferece algumas ideias que podem ser transferidas para a mordomia cultural. O localismo reconhece o caráter único de cada região e sugere que é bom cultivar produtos nativos do lugar e em sintonia com o clima, o solo natural e a botânica local. Flores de estufa ou vegetais importados podem ser desejáveis quando nosso clima local é inóspito ou algum desastre danificou as colheitas locais, mas há uma virtude nos produtos locais. Muitas vezes eles têm um gosto melhor. Comer alimentos sazonais locais parece ser melhor para o nosso corpo.” (cap. 6 - pág. 67)
Quantas verdades nessas palavras! Vamos sentar nesse chão do quintal e pensar como plantar nos ensina sobre mordomia cultural.
A natureza nos ensina
A primeira coisa de que somos lembrados é a possibilidade de aprender observando como a natureza trabalha. A Bíblia afirma várias vezes que a criação está falando conosco. O sol, a lua, os animais, a terra — todos estão anunciando a glória de Deus. Mas nem todos têm olhos para ver ou ouvidos para ouvir, e os poucos que têm não dispõem de tempo.
“Mas, pergunta agora aos animais, e cada um deles te ensinará; e às aves dos céus, e elas te farão saber; ou fala com a terra, e ela te ensinará; até os peixes do mar te contarão.” (Jó 12:7-8)
Localismo
Makoto nos apresenta o conceito de localismo, que resumidamente é cultivar o que é propício ao lugar. Existe uma variedade de frutas, legumes, verduras e hortaliças, e cada uma delas precisa de um tipo específico de solo, clima e rega para produzir em sua plenitude — ou seja, mais saudável e com mais sabor. Há grupos que se assemelham, pois requerem mais tempo no sol, ou mais sombra, mais água, e por isso faz sentido — na verdade, é necessário — o que a agricultura sintrópica chama de consórcio, já que existe um sistema de troca entre essas plantas. Mas isso só é possível se aquelas culturas forem propícias ao solo e ao clima do lugar. Existe a possibilidade de plantar alguma coisa sem levar em consideração o localismo? Sim, mas o custo é alto.
Artificialidade
Produzir em estufa traz pelo menos três desvantagens. A primeira é o custo: fica muito mais caro, pois é necessário despender muitos recursos para brigar com a natureza. A segunda é que dá muito mais trabalho: lutar contra as pragas, adubar artificialmente a terra e imitar microclimas. E, por último, o pior — o sabor artificial. Eu penso que há pessoas que se esqueceram do verdadeiro sabor de uma manga amadurecida no tempo e colhida na hora.
Por uma cultura com mais sabor
Uma cultura com mais sabor nasce do cuidado. E todo bom roçado começa com gente disposta a ajoelhar na terra, sujar as mãos e aprender, outra vez, de novo e de novo, a ouvir o que o chão está dizendo. Ao cuidar da cultura, precisamos resistir à tentação da estufa e recusar a produção em massa que ignora as condições do solo e do clima local. A agricultura nos ensina que nem tudo precisa crescer rápido, nem tudo precisa vir de longe, nem tudo precisa ser tão padronizado assim. Existe uma vocação própria em cada lugar, em cada comunidade, e ela deve ser levada em conta ao lidarmos com a cultura. Ser um cristão brasileiro é ser chamado a olhar para o solo do nosso país e, nesse chão tão diverso, enxergar a possibilidade de glorificar a Deus com nossa brasilidade.
O agricultor que ignora o clima pode até colher alguma coisa, mas paga um preço alto. Parece que os cristãos brasileiros ignoraram por muitos anos nosso solo, de maneira que hoje pagamos esse preço: tornamo-nos um povo que preferiu servir a Deus nos moldes europeus, norte-americanos e australianos. Quando desprezamos o solo onde estamos, nossa história, nossa gente, nossa linguagem, acabamos produzindo uma cultura artificial. Como diz o querido Gerson Borges: entramos na Igreja e parece que saímos do Brasil.
No fim das contas, a pergunta que fica não é se estamos produzindo, mas o que estamos produzindo. Estamos cultivando em sintonia com o solo que Deus nos deu, ou estamos tentando forçar colheitas fora de tempo e lugar? Junho vai chegar, o Senhor da Ceifa virá, e nós, trabalhadores do seu roçado, haveremos de prestar contas das sementes e do solo que ele nos confiou. Que sejamos achados fiéis!
Ramon Souza, artista do Coletivo Candiero.






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