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há 4 dias
5 min de leitura

Do ovo ao omelete: seis lições de Criadores de Cultura, de Andy Crouch

 

A interseção entre a fé cristã e a cultura, às vezes, é um tanto nebulosa, turva, de maneira que a gente precisa de mentores que, como um farol, apontem um porto seguro. É assim que eu enxergo este livro, Criadores de Cultura, de Andy Crouch: um farol que ilumina quem está perdido no grande mar que é a cultura. Vou destacar algumas ideias que achei muito interessantes.


  1. Para criar, é preciso ordem. Existe uma noção equivocada de que o fazer artístico é desordenado, sem critério, e de que o artista é alguém descompromissado. Mas o artista maior, Deus, nos dá o exemplo de que a criatividade não existe sem o cosmos, sem a ordem que organiza o caos. Ser artista é imitar Deus, trazendo ordem ao caos. Diz Crouch:

"Ainda assim, a criatividade não pode existir sem ordem, uma estrutura na qual a criação pode acontecer. Em nível cósmico, a profusão extraordinária de espécies nunca sobreviveria se o mundo fosse uma mistura indiferenciada de elementos. Isso é verdade para a criatividade humana também. Sem a caixa escura de um cinema, os filmes perderiam seu poder de atração. Sem as linhas e os espaços que formam a escrita, o livro seria uma sopa de letras. A criatividade requer o cosmos, requer um ambiente ordenado."

  1. A cultura é cumulativa. Nesse ponto ele me lembra Makoto Fujimura, que fala de um processo geracional na produção de cultura. Bebemos de outras gerações e, justamente por isso, precisamos pensar nas que virão depois de nós. Crouch, na página 28:

"A cultura é cumulativa. Nossos produtos culturais se tornam parte do mundo do qual uma geração futura deve fazer algo. Nos dois sentidos, é importante valorizar a profundidade disso. A cultura é realmente uma parte do nosso mundo, tão central para a nossa vida e nosso ser humano quanto a natureza. O mundo cultural da linguagem é mais essencial ao desenvolvimento humano do que o mundo dos sonhos."

E na página 42:

"Criar cultura exige bens compartilhados. Criar cultura é ter pessoas, no plural, fazendo algo no mundo. Nunca é um negócio solitário. Apenas os artefatos que deixam a solitude dos estúdios e a imaginação de seus inventores podem mover os horizontes da possibilidade e se tornar matéria-prima para criar mais cultura. Até que um artefato seja compartilhado, ele não é cultura."

É isso que também nos ensina o Makoto em Cuidado Cultural, que a

“formação cultural é geracional, não nasce da noite para o dia. O pensamento geracional pode nos inspirar a trabalhar dentro de uma visão de cultura que se expressa em séculos e milênios, em vez de trimestres, estações ou tendências.Pessoas na arte trabalham em conversação com artistas do passado, enquanto moldam o futuro, tentando produzir obras duradouras que, por sua vez, falem às gerações futuras."

  1. Sempre há espaço para mais. O artista é chamado a olhar a natureza não com um olhar explorador, mas com atenção às potencialidades que a matéria oferece. A diferença entre o ovo e o omelete é a arte. A diferença entre a pedra e a escultura é a arte. A diferença entre o ruído e a música é a arte. E há espaço para mais; precisamos prestar mais atenção. Olha o que diz Crouch:

"Talvez exista mais aqui do que percebemos. Até mesmo um simples prato de café da manhã codifica todo um conjunto de suposições e esperanças a respeito do mundo, que poderíamos resumir deste modo: o mundo tem ovos, mas deveria também ter omeletes. O mundo, diz o artefato cultural, sempre tem espaço para mais. As realidades do nosso ambiente natural, por mais satisfatórias e nutritivas que sejam, não são nada se comparadas ao que pode acontecer com um pouco de cultura. Ou, no caso do omelete, séculos e séculos de aperfeiçoamento gradual de todos os ingredientes culturais, do queijo às frigideiras, que tornam o omelete possível. A cultura cumpre a promessa latente da natureza. Para ecoar a linguagem bíblica, o ovo é bom, mas o omelete é muito bom."

  1. É possível criar cultura no nosso mundinho, no microcosmo. Se há um tema que pulsa no livro e que me chamou muito a atenção, é este. Quem se envolve com cultura costuma ter o desejo de mudar o mundo. Mas quando isso vira obsessão, fechamos os olhos para as pequenas oportunidades diante de nós, a oportunidade de criar cultura que mude de fato o nosso mundo. Muitas vezes isso será feito no anonimato, o que não pode ser empecilho nem motivo de desânimo. Escreve Crouch:

"Mas, quando consideramos as escalas menores de cultura, começamos a ter influência mais significativa sobre o que a cultura faz no mundo. Como pais de duas crianças, Timothy e Amy, minha esposa Catherine e eu temos verdadeiramente a capacidade de tornar algumas coisas possíveis e outras impossíveis para eles e para nós mesmos. Mesmo que a nossa criação de cultura aconteça dentro de horizontes mais amplos sobre os quais temos menor controle. Então, a cultura da nossa família torna possível, ou pelo menos muito mais fácil, fazer música, ler, contar histórias, assistir ao beisebol e tomar chá no domingo à tarde. Pouco posso fazer a respeito dos horizontes da língua inglesa, mas posso fazer muito a respeito da cultura da minha família, para o bem e para o mal. É o que Catherine e eu temos feito."

Isso não é demais? Tira um peso das costas. Mudar o mundo inteiro é impossível, como ele mesmo diz, mas o nosso mundo, o das pessoas ao nosso redor, é um horizonte de possibilidades.


  1. Haverá cultura na eternidade. O capítulo que mais me alegrou foi o 10, "Ao Apocalipse". Ele me fez pensar em quais artefatos culturais entrarão na eternidade. O que de brasilidade atravessará os portões da Nova Jerusalém? Crouch cita Richard Mouw:

"A formação da cidade será mais parecida com nossos padrões culturais atuais do que geralmente se reconhece nas discussões sobre a vida após a morte. Isaías retrata a cidade santa como um centro de comércio, um lugar que recebe as embarcações, as mercadorias e a moeda da atividade comercial. Isaías está, no jargão contemporâneo, interessado no futuro das estruturas corporativas e dos padrões culturais. E sua visão o leva ao que, para muitos de nós, são observações surpreendentes sobre o destino futuro de muitos itens da cultura pagã. Ele vê esses itens sendo reunidos na Cidade Santa para serem bem utilizados ali."

Eu ri quando Crouch diz que, na lista pessoal dele de "glória e honra das nações", incluiria a Missa em Si Menor de Bach, o Kind of Blue de Miles Davis, a Odisseia de Homero, Moby Dick, o Mini Cooper e outras coisas. Interessante, né? Eu acredito, francamente, que acarajé não faltará.


  1. Por fim, a cultura não é transformada só com pensamentos e reflexões. Ela é transformada por artefatos, por bens culturais, que a gente não domina, que não sabemos se farão sucesso e que precisam ser testados. A gente faz e deixa o resultado com Deus. Precisamos nos unir a Deus nessa missão. Crouch termina o livro, antes do pós-escrito, assim:

"Você quer fazer cultura? Encontre uma comunidade, um pequeno grupo que possa alimentar seus sonhos com amor e esvaziar suas ilusões. Encontre amigos e forme uma família que esteja disposta a ver a graça em ação, uns na vida dos outros, discernindo quais os dons e as cruzes que cada um foi chamado a suportar. Encontre pessoas que tenham um santo respeito pelo poder e uma disposição santa de usar seu poder junto dos impotentes. Encontre alguns parceiros no mundo selvagem e maravilhoso para além das portas da igreja. E então, juntos, façam algo do mundo."

E acrescento: encontre o que Deus está fazendo no seu tempo e una-se a Ele imediatamente.



  • Ramon Souza, artista do Coletivo Candiero.




Para uma visão geral do livro, leia também o texto da Ana Endo, diretora editorial da W4. Em novembro e dezembro, o Clube do Livro do Vitral lê O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Quer ler com a gente? Seja um Vitralista. Garanta seu livro aqui. (Quando você compra usando nosso link, nós recebemos uma comissão, o que ajuda a sustentar o Vitral.)






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